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Escrita a carta Zola
publica-a numa terça-feira a treze de Janeiro de 1898, como carta aberta no
jornal L’Aurore ao que o editor
Ernest Vaughan (membro da Primeira
Internacional
Socialista, o que desde já mostrava as preferências dos artigos contidos neste
hebdomadário) conjuntamente com Georges Clemenceau decidem colocá-la na
primeira página em seis colunas o que sendo inédito daria mais destaque ao
documento. A carta, cujo texto apresentei na íntegra no tópico anterior,
contém, ponto-por-ponto, o texto total do Caso Dreyfus e conclui-se com uma
série de fortes acusações contra os chefes militares franceses... em duas horas
esgotaram-se os mais de duzentos mil exemplares[1], número
que já por si excedia dez vezes mais o normal e acrescido do tempo que levou a
esgotar exibe bem o interesse que o material levantou na opinião pública
denotando por excelência, paralelamente, o êxito merecido do documento.
Como consequência da
publicação o deputado católico conde Alberto de Mun interpelou o Governo na
Câmara sobre as medidas que tencionava tomar enquanto o Presidente do Conselho
Méline declarou de imediato que iria intentar um processo ao escritor, no que
concerne ao Ministro da Guerra o General Billot secundou-o verberando
“abominável campanha!”. Os deputados
Jaurès e Cavaignac lamentaram o facto de o Governo não ter publicado o pretenso
relatório do capitão Renaud Lebrun segundo o qual Dreyfus afirmara ter confessado... durante a pretensão argumentativa do
Chefe do Governo com o fito de demonstrar que não possuía qualquer intenção de
abrir uma tribuna ao processo de revisão, os deputados votaram uma moção de
confiança ao Governo pedindo que tomasse as medidas necessárias para pôr termo
à campanha difamadora da honra do exército; porém, os socialistas mais uns
sessenta radicais e radicais-socialistas votando contra puseram o Governo a
ruminar uma forma alternativa de condenar tanto Zola como o gerente[2] do L’Aurore de modo a que a questão à volta
de Dreyfus não fosse levantada na discussão. Ensaiaram, os conservadores, em
apenas considerarem difamatórias as acusações feitas por Zola contra o Conselho
de Guerra que absolvera Esterhazy mas tudo o que o escritor afirmara sobre o
primeiro Conselho de Guerra, aquele que condenara Dreyfus, tal como sobre todos
os que montaram a máquina do processo nunca poderia ser considerado
difamação... perante esta análise os opositores à Carta de Zola permitiram-lhe
observar que afinal reconheciam as suas alegações como verazes e por isto
tiveram que engolir as suas vãs tentativas sob o perigo de cometerem uma grave
injúria. O ódio desmedido dos opositores já não os deixava raciocinar com
clareza ao ponto do Conselho de Ministros, no intuito de evitar o tribunal do
júri, mas apenas a fazer julgar e condenar o autor da Carta num simples
tribunal da polícia correccional por denúncia caluniosa só o não ousou fazer
porque o Procurador-geral e o Procurador da República declararam tal atitude
juridicamente impossível.
Sem cederem, os opositores
organizaram com toda a rapidez um processo no qual o pretenso delito do autor
da Carta se limitava à difamação contra o segundo Conselho de Guerra[3] mas
assim que Zola recebeu a intimação imediatamente protestou nas colunas do L’Aurore aonde voltou a acusar
abertamente os generais Billot, de Boisdeffre, Gonse e de Pellieux assim como o
coronel Du Paty de Clam e o major Ravary; Zola nesse texto acrescenta nas
colunas do jornal: “Saberei vencer pela
força da justiça; farei luz nas consciências pela explosão da verdade.
Ver-se-à, logo às primeiras palavras, as argúcias processuais varridas pela
imperiosa necessidade de prova. Essa prova, a lei ordena-me que a faça e a lei
seria mentirosa se, impondo-se esse dever, me recusasse os meios de o cumprir. Como
poderei fazer a prova se não puder mostrar o encadeamento dos factos e se me
impedirem de fazer plena luz sobre a questão?” Só que a lei, tal como se
pode observar no nosso palco, era na realidade mentirosa. Pelos seus documentos
duvido que Zola se tenha enganado pois este autor possuía total conhecimento
desse facto lançando, por isso, o texto acima apresentado baixo uma hipótese de
ainda os amedrontar apesar da sua mínima esperança pelo menos a curto prazo e
digo ‘amedrontar’ porque observei em variegados documentos que analisam a
situação de Zola que este já antevendo o pior precisava de ganhar algum tempo
para preparar a sua fuga... o que veio a acontecer. Ora e na continuidade do
por mim afirmado, por esta firme atitude do autor da Carta, a Câmara de
Deputados viu-se obrigada a um novo debate no próprio dia em que o protesto do
escritor veio a lume no L’Aurore mas
agora era Jaurès, secundado pelos mais eminentes dos socialistas[4], que o
provocou. O grande orador tal como os seus colegas foram chamados à ordem e
repreendidos pelo presidente se bem que os mais injuriosos apartes ecoavam do
centro e da direita... se a Jaurès a direita o apelidou de advogado do sindicato o orador não deixou de o apelidar de miserável e cobarde; os ânimos aqueceram
de tal forma que os tumultos tomaram lugar e em pouco tempo a cena de pugilismo
entre deputados tornou-se a tónica do diálogo[5].
Resultado, sendo essa a intenção da esquerda e de Zola, a sessão foi suspensa
mas tal só se deu com a intervenção da força armada e só assim foi evacuada a
Assembleia.
Dois dias depois o debate
era reaberto tomando, de novo, a palavra Jaurès assentando o seu discurso num
impor de limites à acusação, isto é, o escritor deveria ser julgado por todas
as acusações contidas na Carta ao Presidente da República a fim de poder fazer
prova delas; se esta era a vontade de Zola como de todos os amigos de Dreyfus
já o Governo o temia tentando evitar tal a todo o transe só que agora a Câmara
vence pela grande maioria de trezentos e sessenta votos contra cento e vinte
seis dos socialistas e apenas alguns radicais presentes o que concedeu a razão
ao governo permitindo o Presidente do Conselho dizer calmamente a Jaurès:
“respondo-lhe que não queremos discutir a
questão e que não quero servir os seus cálculos.”
O anti-judaísmo cresceu ao
ponto da imprensa afim incitar a população a executar o pogrom[6] como só
até então se tinha visto na Rússia e na Polónia, um tal Guérin associado do
jornalista anti-judaico Drumont percorria os diversos bairros de Paris à frente
de bandos de energúmenos queimando os jornais que defendiam a revisão do
processo de Dreyfus tal como assaltando e pilhando as lojas dos judeus; este
cenário repetiu-se em Bordéus, Nancy, Nantes e em outras cidades francesas mas
foi na Argélia que o progrom tomou
extraordinárias proporções uma vez que em alguns dias foram destruídos cento e
cinquenta e oito estabelecimentos judaicos em cujas manifestações foram
inclusivamente agredidas mulheres judias.[7]
A menos de um mês após a
publicação da Carta no L’Aurore e
neste ambiente de ódio começa o julgamento de Émile Zola; mesmo sendo raro a
justiça ser tão expedita a verdade é que não houve processo a instruir nem
testemunhas para depor... apenas o corpo do delito ali jazia e, mesmo deste,
apenas um parágrafo arrancado ao maciço conjunto das acusações. Zola era o réu
encontrando-se a seu lado o gerente do L’Aurore;
o julgamento durou quinze dias não servindo de nada a grandeza e eloquência do
advogado de defesa do escritor porque já estava estabelecida a sua condenação.
Ademais, a presença do gerente do jornal apenas serviu para afundar ainda mais
Zola e o saber que a sua presença era apenas um proforma e o modo como ainda agravou mais o seu amigo angustiou de
sobremodo Perreux.
A afluência do público era
enorme não havendo espaço para receber mais gente na sala das sessões... este
público era na sua maioria hostil a Zola sendo grande parte dele constituído
por oficiais com roupas civis e outros fardados que compareciam tanto espontaneamente como por ordens superiores;
ora, quem organizava esta claque era nem mais nem menos que Du Paty de Clam.
Isto veio-se a saber por um advogado anti-semita Júlio Auffray; aconteceu que
na ânsia de se recrutar mais militares fardados para a assistência, Du Paty de
Clam escreveu uma carta afirmando que seria para ele um prazer procurar um
certo reforço de oficiais e que poderiam contar com os seus homens; porém
enganou-se ao endereçar a carta e dirigiu-a para outro Auffray mas cujo
primeiro nome era Francisco e por aqui se viu confirmada a maquinação.
O Presidente do tribunal
mostrou sempre ser um zeloso funcionário, obediente aos seus superiores pois
disso dependiam os seus honorários por parte do Governo tal como o relatório
sobre o seu comportamento por isto cumpriu na íntegra em não permitir que se
abordasse a questão de Dreyfus conforme o intimaram.
Tanto à chegada de Zola ao
Palácio da Justiça como à partida aguardava-o uma parte do público para o
vaiar, insultar e gritar: «À morte Zola!
Abaixo os judeus! Viva o exército!» O público entoava canções patrióticas
enquanto o grupo encarregado das agressões se aproximava sorrateiramente da
carruagem para poder atingir o escritor à bastonada tendo sido um grupo de
amigos de Zola que se organizou com o propósito de o proteger e escoltar a fim
de que tal não voltasse a acontecer enquanto à polícia se mantinha à distância.
Tal como no exterior assim ocorria na sala das sessões do Palácio da justiça...
na audiência os militares tornavam-se ruidosos movendo as espadas e as
correntes como deixando escapar sons e expressões a fim de perturbarem a defesa
de Zola a actuar, os generais e demais oficiais interrogados podiam responder
conforme lhes apetecia e os generais podiam mesmo oporem-se; enfim, a farsa era
total porém a postura de Zola era de uma indiferença completa até que a
determinada altura o general de Pellieux – ser arrogante, provocador e neste
sentido com uma oratória bem dirigida – se voltou para os jurados afirmando: «Que querem que seja o exército no dia do
perigo, mais próximo talvez do que julgam? Que querem que façam os infelizes
soldados, que serão conduzidos ao fogo por chefes a quem procuraram
desconsiderar junto deles? Será ao matadouro que conduzirão os seus filhos,
senhores jurados. Mas o Sr. Zola terá ganho uma nova batalha; escreverá uma
nova Derrocada e levará a língua francesa a uma Europa donde a França terá sido
suprimida nesse dia!» Perante estas afirmações Zola não se pode conter e
ergueu-se para proferir com voz fremente: “Há muitas maneiras de servir a França podemos servi-la pela espada ou
pela pena. O Sr. General de Pellieux tem, sem dúvida, alcançado estrondosas
vitórias. Eu ganhei as minhas. Pelas minhas obras, a língua francesa tem sido
levada ao mundo inteiro. Tenho as minhas vitórias. Lego à posteridade o nome do
General de Pellieux e o de Émile Zola: ela escolherá!”
Foi este General de
Pellieux que apesar do deu excesso de zelo se permitiu evocar a questão Dreyfus
infringindo deste modo as imposições do Presidente; porém este não o chamou à
ordem porque aos Generais tudo era permitido. Foi graças a isto que surgiu uma
(das várias), falsificação do tenente-coronel Henry, uma das muitas que o
haveria de conduzir ao suicídio. A fim de demonstrar ser Dreyfus o traidor
reportou-se a um documento “de origem
incontestada” de que o Ministério da Guerra tivera conhecimento, no qual se
afirmava, por ocasião de uma interpelação parlamentar, em Novembro de 1896 “Vai produzir-se uma interpelação sobre a
questão Dreyfus. Não diga nunca as relações que tivemos com esse judeu” e
para testemunhar isto invocou o testemunho do Chefe do Estado-maior general
Boisdeffre o qual foi imediatamente chamado mas porque não se encontrava no
Palácio da Justiça a sessão foi suspensa até que o general chegasse. Quando
Boideffre se apresentou e a sessão reabriu este confirmou tudo o que se tinha
afirmado sem se adiantar mais; ora o documento em questão não era mais do que o
que foi totalmente falsificado por Henry o qual o atribuiu ao adido militar à
embaixada italiana e dirigido ao adido militar da embaixada alemã; este
documento foi forjado para convencer os seus chefes, ainda vacilantes, da
culpabilidade de Dreyfus... porém a nível do tribunal o documento falsificado
não teve repercussões.
Um dos depoimentos de maior
interesse foi o do coronel Picquart o qual foi quem descobriu ser o bordereau obra de Esterhazy por isso e
por outra razão expôs largamente tudo quanto sabia incluindo os antecedentes e
fê-lo com uma serenidade e uma elegância que impressionou os seus próprios
adversários; a outra razão porque expôs todo esse material assentou no facto de
antes de ter começado o julgamento de Zola lhe fora intentado um processo
disciplinar a pretexto de ter revelado ao advogado Leblois documentos secretos
dos arquivos da Segunda repartição do Estado-maior concernentes a Dreyfus e a
Esterhazy; o Conselho de Disciplina resolvera castigar o coronel Picquart
reformando-o por imposição do serviço porém, o Ministro da Guerra ainda não
tinha lavrado o despacho confirmativo dessa decisão quando este coronel depôs
no julgamento de Zola; no final do seu depoimento o coronel foi amplamente
elogiado por parte do público tal como por inúmeros advogados jovens – só na
sala das sessões haviam cerca de duzentos advogados. De tudo o que pudessem ou
quisessem fazer a favor de Zola nada valia a pena pois a decisão há muito
estava tomada: a condenação do escritor; deste modo foi condenado à pena máxima
estipulada para estes casos: um ano de prisão e três mil francos... do mesmo
modo foi condenado o gerente do L’Aurore
condenado em três mil francos mas apenas a quatro meses de prisão.
Zola e o editor recorreram
da sentença sendo o fundamento principal do recurso o terem sido coarctados os
direitos da defesa este foi defendido pelo jurisconsulto Mornard. As pessoas a
favor de Zola e do Editor aumentavam desmedidamente e já se começava a exigir a
revisão do processo de Dreyfus; o Governo cedeu por uma questão de imagem e por
outros factores que ficaram por apurar, apesar de não gostar nada deste
recurso. Foi indevidamente o Ministro da Guerra em vez de terem sido os ofendidos pela Carta de Zola a expor a
sua situação contra o réu; não obstante foi exigido que o caso fosse tratado no
tribunal de Versalhes por ter a fama de ser o mais severo. Com o avolumar da
corrente de opinião a favor da revisão do processo de Dreyfus convinha aos
amigos deste ganhar tempo para o novo julgamento de Zola e por isto o advogado
de defesa do escritor, ao abrir a audiência, levantou logo a questão da
competência desse tribunal para julgar o feito... baseava-se no facto do
delito, se é que este existia, fora praticado em Paris local onde os acusados
tinham a sua residência e por tal era em Paris que se deveria executar o
julgamento e nunca numa comarca judicial à qual eram estranhos tanto o acto praticado
como os seus autores; o tribunal declarou-se competente para julgar o caso e o
advogado de defesa de Zola anunciou então agravar para o tribunal superior, a
audiência foi suspensa e o recurso formulado porém e de novo o tribunal foi
declarado competente; tudo isto foi prosseguindo com novas dúvidas apresentadas
pelo advogado de defesa do escritor e novas suspensões da audiência mas afinal
era isto que se pretendia: ganhar tempo.
Por fim surge o tribunal
mas o advogado de defesa manda Zola e Perreaux retirarem-se dado que nada os
obrigava a assistir ao julgamento... o tribunal não estranhou essa retirada e
condenou os dois à revelia no máximo da pena.
Poderia parecer que o
advogado de defesa se tivesse precipitado mas do ponto de vista do jogo judicial
o advogado fez o mais ajuizado só que Zola não estava de acordo com esses
movimentos e tricas judiciárias; chegou mesmo a protestar contra Clemenceau
pelos escritos que fez em seu nome mas Clemenceau via principalmente o aspecto
político da questão e as vantagens de tirar proveito dela contra as forças
reaccionárias e o Governo; porém Zola via sobretudo o aspecto humano e daí a
divergência entre ambos... paralelamente os amigos de Zola impuseram-lhe que
deixasse Paris para um local onde se pudesse esconder e já se punha a hipótese
de ter mesmo que deixar o país. Tudo isto era muito confuso para o escritor
pois sabia que os seus inimigos iam interpretar esse exílio táctico como uma
fuga e tirariam daí conclusões não só contra ele, pessoalmente, mas em especial
contra a causa pela qual se sacrificara. Os amigos de Zola liderados por
Clemenceau e o advogado de defesa Labori sabiam que o importante era que o
escritor não comparecesse a mais nenhum tribunal nem mesmo que conseguisse uma
pena mínima pois o mais importante era que a questão de Dreyfus fosse revista e
só depois disto é que o escritor poderia comparecer em tribunal e se
acontecesse ao contrário nunca mais o processo de Dreyfus seria revisto.
Claro que aos olhos
românticos de Zola tudo lhe parecia mal e perante todas as argumentações dos
seus amigos – que no fundo o escritor sabia terem razão –, contra a sua vontade
idílica de ser preso para defender a justiça atrás das grades, enquanto os
Esterhazy eram aclamados pelas turbas e não se divisava hipótese alguma para
que a revisão do processo Dreyfus fosse alcançado continuando aquele desgraçado
inocente a penar na Ilha do Diabo, Zola acaba por ceder; mas em vez de ficar em
França abandonaria Paris para ir para Inglaterra tendo efectuado a partida para
Londres em dezoito de Junho de 1898, isto é, no mesmo dia em que o tribunal de
Versalhes o condenou à revelia. Da casa e das posses Zola nada foi leiloado
apenas uma simples mesa que o seu Editor Fasquelle arrematou de imediato por
trinta e dois mil francos, a quantia exacta exigida pelos peritos como
indemnização. A sua esposa permanecera em Paris protegida pelos amigos do
escritor e Zola encontrava-se em Londres num hotel sob um nome falso francês do
qual, devido ao receio dos amigos porque ouviram focar por parte de inimigos de
Zola o nome do mesmo hotel, se mudou para outro sob um nome francês diferente;
estas precauções em parte absurdas amarguravam Zola que de novo mostrou vontade
de voltar a França e entregar-se à prisão. O que mais lhe custava era ser um
fardo para os outros, quanto mais ver os seus amigos numa azafama entre a sua
protecção e a da sua esposa; porém, conseguiram-no demover de tal atitude e,
por fim, alugou uma casa em Penn, sob o nome de Jacques Beauchamp, com o
dinheiro que já vinha obtendo do seu trabalho como escritor aonde sua esposa e
os seus filhos se vieram a reunir, concedendo-lhe uma maior estabilidade
emocional.
A Presidência do Conselho
na pessoa de Méline como todos os seus súbditos caiu e do mesmo modo o
Ministério da Guerra tendo sido substituídos por um Gabinete da Presidência de
Brisson no qual Cavaignac ocupava a Pasta da Guerra antes sobraçada pelo
General Billot o que deu lugar à precipitação dos acontecimentos referentes à
revisão do processo Dreyfus.
Mal o novo Governo se
apresentou à Câmara o deputado Castelin formulou uma interpretação sobre a
questão Dreyfus ao que o Ministro da Guerra pediu um prazo de oito dias para se
habilitar a responder; Cavaignac queria arrumar este assunto de uma vez por
todas e para tal reuniu todos os documentos secretos existentes nos arquivos do
Estado-Maior sobre o processo Dreyfus ouvindo, paralelamente, o capitão Renaud
Lebrun sobre a pretensa confissão do condenado... desta forma e munido de todo
o material que necessitava e que lhe convinha para corroborar de acordo com a
sua vontade a fim de pôr fim ao furúnculo, Cavaignac apresentou-se na Câmara
onde citou os documentos apontando os factos
que lhe permitiram afirmar “a certeza
absoluta da culpabilidade de Dreyfus.” Leu diversos documentos nos quais um
terminava subscrevendo-se por um ‘D’ enquanto outro possuía o nome completo de
Dreyfus e neste o capitão condenado era considerado como um dos espiões
franceses ao serviço das potências da Tríplice Aliança.
Os jornais anti-semitas
embandeiraram em arco felicitando o corajoso Ministro da Guerra que finalmente
produzia os documentos insofismáveis da culpabilidade de Dreyfus puxando o
tapete debaixo dos pés daqueles que exigiam a revisão do processo mas estes não
desarmaram e reunindo-se com o advogado Labori assentaram que o coronel
Picquart tomaria a iniciativa de desmascarar a nova manobra. Reformado pelo
motivo disciplinar já atrás abordado, esse oficial tivera em seu poder e
estudara pormenorizadamente o arquivo secreto do Estado-Maior relativo à
questão Dreyfus o suficiente para saber que tanto o documento subscrito por ‘D’
como o que continha o nome completo de Dreyfus não existiam na altura (1894),
ora, se apareciam agora em 1898 os documentos só poderiam ter sido forjados;
fundamentado nisto o coronel Picquart escreveu ao Presidente do Conselho
Brisson afirmando-se em condições de provar “perante qualquer jurisdição competente” tais falsificações publicando esta
carta no Temps; Cavaignac como
resposta acusou Picquart por divulgar
documentos do interesse da segurança do Estado – não só o afirmou como o mandou
prender. Picquart foi preso mas apresentou queixa contra o autor desconhecido
dos telegramas que lhe tinham sido dirigidos, anteriormente, subscritos por Blanche e Speranza supondo provenientes de Esterhazy ou daqueles que o
protegiam como Du Paty de Clam e Henry.
A doze de Julho de 1898 o
deputado Fournière apresentou uma nova interpelação ao Governo sobre a
autenticidade das peças tornadas públicas pelo Ministro da Guerra... desta vez
o ministro pediu um mês a fim de poder executar novas peritagens que lhe
permitissem responder a essa interpelação o que foi concedido por uma enorme
maioria. Decidido, o ministro, incumbiu um oficial do seu gabinete o capitão
Guinet de lhe redigir um relatório de conjunto sobre a questão Dreyfus de tal
forma esmagador deste que lhe permitisse obter da Câmara um voto no sentido de
poderem ser entregues aos tribunais e julgados por alta traição todos quantos
se obstinavam a agitar este assunto... o desejo de agradabilidade do capitão
Guinet ao seu ministro era grande mas ao examinar detidamente as peças de
convicção verificou à transparência que o quadriculado dos fragmentos da parte
superior do bilhete atribuído a Panizardi[8] não era
da mesma cor dos fragmentos da cor do bilhete; paralelamente, observou que a
letra tinha sido habilmente imitada mas o papel era outro e imediatamente
comunicou essa descoberta ao chefe do gabinete do ministro prevenindo este
Cavaignac. Mas Cavaignac não se deu por convencido ordenando novas e mais
rigorosas investigações ao que o capitão Guinet obedeceu mas baseando-se sempre
no quadriculado do bilhete provou ao Ministro da Guerra ter havido falsificação
e por isto acabou por se convencer Cavaignac em vinte e sete de Agosto de 1898
o qual imediatamente convocou telegraficamente os generais de Boisdeffre e
Gonse que compareceram no Ministério da Guerra no dia seguinte. Informados
estes do ocorrido decidiram chamar o coronel Henry, que se apresentou no
Ministério para se explicar sobre o assunto.
Henry foi interrogado pelo
próprio ministro mas no início manteve a autenticidade dos documentos; porém e
depois de o chamarem à atenção para as particularidades do quadriculado acabou
por confessar que fizera umas alterações acrescentando uma frase apenas para
clarificar o texto de forma a tranquilizar os seus chefes e acrescentou
“procedi no interesse do país e do
exército, o que considero como superior a qualquer outra consideração”...
pois é, só que o ministro não foi da mesma opinião mandando passar o falsário a
outra sala incumbindo o seu chefe de gabinete de o ouvir mais demoradamente.
Depois de escutar o coronel Henry durante cerca de uma hora o chefe do gabinete
apresentou a sua tese ao ministro o qual ordenou o Governador Militar de Paris
mandar um oficial ao ministério a fim de acompanhar o coronel Henry sob prisão
ao forte Monte-Valeriano dando o falsário entrada na prisão às vinte e duas
horas e trinta minutos. No dia seguinte o preso escreveu várias cartas, uma
para a sua esposa, outra para o general Gonse e iria escrever mais não fora ter
observado que quanto mais se explicava mais absurdo se tornava ao ponto de,
vendo-se na impossibilidade de ele próprio acreditar nas suas justificações,
pegar na navalha da barba e pôr termo à sua existência. Imediatamente a seguir
a esta ocorrência, Cavaignac apresentou a sua demissão de Ministro da Guerra a
três de Setembro de 1898.

A razão deste tópico ser
tão exaustivo assenta no facto de constituir este a explanação e a exposição
cabal dos factos por mim encetados, mas em incompletude, tanto na Introdução como no tópico A França, o Anti-Semitismo e a Cultura
(The surround ambience...). Neste tópico, assente no Diário de Zola, testemunha-se com profundidade as estratégias
impúdicas dos militares de altas patentes, a subjugação do Governo em geral e a
do Presidente da República em particular, ao Estado-maior das Forças Armadas, à
Igreja e às manobras de diversão (de despiste) executadas por uma espionagem e
respectiva contra-espionagem aparentemente inútil mas suficientemente efectiva
a favor do anti-semitismo (ou anti-judaísmo, neste ponto tanto faz); por outro
lado pode-se observar vivamente o estado manobrado da jurisprudência em geral
como da magistratura em particular, submetidas ao poder militar, à Igreja e à
alta burguesia... a ala dos conservadores ainda sedentos pelo Império como, se
bem que não tanto como em 1850, pelo Imperador.


Os anti-semitas desesperados viam-se a
perder terreno quando subitamente a esposa de Dreyfus apresenta ao Ministro da
Justiça um requerimento com o fim de que se executasse a revisão do processo
pelo qual fora o seu marido condenado. O Presidente do Conselho era finalmente
favorável à revisão e o Governo enviou o requerimento ao tribunal de cassação[9] o qual
a vinte e nove de Outubro de 1898 o recebeu ordenando uma instrução suplementar
que se procedeu apesar dos tumultos no seio do Governo e fora dele que não se
fizeram esperar: o novo Ministro da Guerra general Zurlinden a princípio
favorável à revisão acaba por se lhe opor, Brisson e o Ministro da justiça
Sarrieu eram a favor dela se bem que o segundo acabasse também por mudar de
opinião... Sarrieu chegou mesmo a pedir ao coronel Picquart um relatório
pormenorizado dos factos do seu conhecimento durante a sua passagem pelas
repartições do Estado-Maior porém o processo contra este continuava a seguir os
seus termos enquanto cá fora os anti-semitas tal como outra estirpe de reaccionários
esforçavam-se desesperadamente por impedir a revisão; a estes juntaram-se
algumas figuras do clero tal como o pretendente ao trono da França o duque de
Orléans o qual, como o clero, achou oportuno publicar um manifesto contra a
revisão terminando este afirmando: «Sob o
pretexto de inocentar um homem que os tribunais condenaram como traidor, é o
exército que querem destruir e a França que querem perder.» Para este
príncipe o exército era Esterhazy o qual pago ou não pelos amigos de Dreyfus
exibiu publicamente a sua confissão de ter sido ele o autor do bordereau acrescentando que o escrevera
por indicação do coronel Sandherr.
Em
pode, portanto, quando lhe aprouver, mandar
intimar-me a sentença do tribunal do júri que me condenou à revelia, a um ano
de prisão e a três mil francos de multa. E encontrar-nos-emos perante o júri.” No
entanto, o tribunal do Júri de Versalhes parecia não ter qualquer pressa de
meter o escritor na prisão desta forma em cada três meses recebia em sua casa
uma intimação para comparecer no tribunal mas no dia seguinte recebia uma carta
transmitindo-lhe ter sido adiada a audiência sem sequer referir a uma nova
data.
Durante o seu exílio, que durou cerca de um
ano, Zola teve tempo e o ambiente necessário
para levar a cabo a revisão do processo Dreyfus e depois de terminar
concentrou-se novamente na sua tarefa de romancista e concluiu o seu romance Fecondité, que foi lançado em Outubro de
1889, um mês depois do Conselho de Guerra de Rennes ter confirmado a condenação
de Dreyfus embora reconhecendo-lhe atenuantes... este novo julgamento foi ainda
mais monstruoso do que o primeiro porque no de 1984 poderia ainda haver dúvidas
devido ao bordereau mas no segundo
julgamento depois da descoberta das falsificações de Henry e das confissões de
Esterhazy os militares que novamente o condenaram não poderiam possuir qualquer
desculpa incluindo o facto do advogado de defesa Labori ter sido alvo de um
atentado a tiros de revólver do qual saiu ferido. Durante as audiências de
Rennes Zola manteve-se propositadamente à distância sem nunca se manifestar
deixando que a justiça corresse sem interveniências exteriores e desta forma as
atenuantes de Dreyfus foram de pena perpétua para dez anos de prisão. O Governo
ficou surpreendido com tão insólito julgamento então presidido por Rousseau
Waldeck o qual se entendeu com os outros ministros para se tratar de perdoar a
pena ao condenado. O próprio Dreyfus vacilava entre permanecer como um símbolo
da injustiça ou aparentemente submeter-se à sentença e recuperar a liberdade
graças ao perdão presidencial, mas apesar de já ter recorrido desistiu para
poder beneficiar do perdão imediato sem o qual teria sempre que aguardar em
prisão cada vez que apresentasse recurso.
Como acima afirmei, durante todo este
processo Émile Zola manteve um alheamento estratégico – o escritor romancista
era um humanista mas não um parvo, para além de ainda ter contas de monta para
ajustar com o Governo francês –, entregou-se ao silêncio e só quando o
Presidente da República Loubet assinou o perdão de Dreyfus em dezoito de
Setembro de 1889 é que o escritor saltou para a ribalta. Zola pega na pena para
afirmar a sua inconformidade e numa indirecta parecendo estar a consolar a
esposa de Dreyfus da segunda injustiça perpetrada contra o seu marido afirmou,
numa carta aberta publicada no L’Aurore
a dezanove de Setembro de 1899, entre outras coisas: “O inocente, condenado duas vezes, fez mais pela fraternidade dos povos,
pela ideia de solidariedade e justiça, que em cem anos de discussões
filosóficas, de teorias humanitárias” e prosseguia “Somos nós, os poetas que pregamos os culpados ao
eterno pelourinho. Àquele a quem condenamos, as gerações desprezam e apupam. Há
nomes de criminosos que, marcados por nós de infâmia, são apenas arrojos
imundos na sequência dos tempos”. Contribuiu esta para lembrar o Governo de
que havia ainda processos pendentes respeitantes à questão Dreyfus e entre eles
estava o de Zola.
No constante intuito de acabar com todo o
ruído acerca de Dreyfus o Governo resolveu publicar um decreto de amnistia o
qual abrangeria Zola... não faltava mais nada; tentava assim calar (no melhor sentido do termo) o
escritor condenando-o como difamador não sendo reabilitado mas apenas
amnistiado por pouco e ainda lhe era concedido o perdão como sucedera a
Dreyfus. Óbvio que Zola não gostou nada daquilo e pegando na pena elaborou uma
Carta aberta ao Sr. Emílio Loubet Presidente da República que foi publicada no L’Aurore em vinte e dois de Dezembro de
1900. Nesta recordou como se verificaram todas as acusações feitas na célebre
Carta a Félix Faure repetindo o articulado do seu libelo nestes termos:
“Acusei
o tenente-coronel du Paty de Clam “de ter sido o obreiro diabólico do erro
judiciário, inconscientemente quero crê-lo, e de ter em seguida defendido a sua
obra nefasta, durante três anos, com as maquinações mais ridículas e as mais
culposas”. – Não é? Isto é discreto e cortês para quem leu o relatório do
terrível capitão Cuignet, que esse vai até à acusação de falsário.
“Acusei
o general Mercier “de se ter tornado cúmplice, ao menos por fraqueza de
espírito, duma das maiores iniquidades do século”. – Aqui, retrato-me e retiro
a fraqueza de espírito. Mas se o general Mercier não tem a desculpa duma
inteligência enfraquecida, a sua responsabilidade é portanto total nos actos da
sua conta que o inquérito do Tribunal de cassação estabeleceu e o Código
qualifica de criminosos.
“Acusei o general Billot «de ter tido nas suas mãos
as provas certas da inocência de Dreyfus e de as ter abafado, de se ter tornado
culpado desse crime de lesa-humanidade e de lesa-justiça, com um fim político e
para salvar o Estado-Maior comprometido». – Todos os documentos conhecidos hoje
estabelecem que o general Billot esteve forçosamente ao corrente das manobras
criminosas dos seus subordinados; e acrescento que foi por sua ordem que o
processo secreto de meu pai foi entregue a um jornal imundo.
“Acusei o general de Boisdeffre e o general Gonse «de se terem tornado
cúmplices do mesmo crime, um sem dúvida por paixão clerical, o outro talvez por
esse espírito de corpo que faz das repartições da guerra a arca santa, inatacável».
— O general de Boisdeffre julgou-se a si próprio, no dia seguinte ao da
descoberta da falsificação de Henry, pedindo a sua demissão, desaparecendo da
cena do mundo, queda trágica dum homem elevado aos mais altos postos, às mais
altas funções, e que cai no nada. E, quanto ao general Gonse, é um dos que a
amnistia salva das mais pesadas responsabilidades, nitidamente estabelecidas.
“Acusei
o general de Pellieux e o major Ravary «de ter feito um inquérito celerado,
considero assim um inquérito da mais monstruosa parcialidade, de que temos, no
relatório do segundo, um imperecível monumento de ingénua audácia». —
Releia-se o inquérito do Tribunal de cassação e ver-se-á o conluio
estabelecido, provado, pelos documentos, pelos testemunhos os mais esmagadores.
A instrução da questão Esterhazy foi uma impudente comédia judiciária.
“Acusei os três peritos em escrita, srs. Belhomme, Varinard e Couard, «de
terem feito relatórios mentirosos e fraudulentos, a menos que um exame médico
não os declare atacados de doença da vista ou do entendimento». — Dizia isto
perante a extraordinária afirmação desses três peritos, que pretendiam que o
bordereau não era do punho de Esterhazy, erro, que em minha opinião, uma
criança de dez anos não teria cometido. Sabe-se que o próprio Esterhazy reconhece
agora ter escrito o bordereau. E o presidente Baliot-Beaupré, no seu relatório,
declarou solenemente que, para ele, não havia dúvida possível.
“Acusei
as repartições da Guerra «de terem promovido na imprensa, especialmente no
Éclair e no Echo de Paris, uma campanha abominável para desorientar a opinião
pública e cobrir as suas faltas». — Não insisto, penso que a prova foi feita
por tudo que se soube depois e por tudo o que os próprios culpados devem ter
confessado.
“Enfim,
acusei o primeiro conselho de guerra de «ter violado o direito», condenando um
acusado sobre uma peça conservada secreta», e acusei o segundo de «ter coberto
esta ilegalidade, por ordem, cometendo por sua vez o crime jurídico de absolver
conscientemente um culpado». — Para o primeiro conselho de guerra, a
apresentação da peça secreta foi nitidamente estabelecida pelo inquérito do
Tribunal de cassação e mesmo no processo de Rennes. Para o segundo conselho de
guerra, lá está o inquérito a provar conluio, a continua intervenção do general
de Pellieux, a evidente pressão sob a qual a absolvição foi obtida, segundo o
desejo dos chefes.
“Vê-o, Senhor Presidente, não há uma das minhas acusações que as faltas e os
crimes descobertos não tenham justificado, e repito que as acusações parecem
bem pálidas, bem modestas hoje, perante o terrível amontoado de abominações
cometidas. Confesso que não teria de modo nenhum ousado supor uma semelhante
acumulação”.
Zola ao ser envolvido pela
graça amnistiante assim como muitos inocentes conjuntamente com muitos culpados
não ocultou a sua amargura e exibiu-o nesta sua Carta aberta antes de provar
que em tudo o que escrevera e afirmara tivera razão para tal, acrescentou
indignado: “É preciso, na verdade, que a
política seja uma grande perversora de almas. Dizer que vários dos nossos
amigos, vários que tão valentemente têm combatido desde o primeiro dia, cederam
ao sofisma, aceitando a lei de amnistia como uma medida política necessária!
Corta-me o coração ver um Rane, tão recto, tão corajoso, tomar a defesa de
Picquart contra o próprio Picquart, mostrando-se contente por a amnistia, que o
impede de salvar a sua honra, o defender do ódio certo dum conselho de guerra!
E Jaurès, o nobre e generoso Jaurès, que se dedicou tão magnificamente à causa,
sacrificando-lhe a carreira de deputado, o que é belo nesta época de voracidade
eleitoral, ei-lo, também, aceitando ver-nos amnistiados, Picquart e Esterhazy,
Reinach e du Paty de Clam, eu e o general Mercier! Todos no mesmo saco! A
justiça absoluta acaba onde começa o interesse dum partido? Ah! Que alegria ser
um solitário, não pertencer a nenhuma seita, só depender da consciência, e que
satisfação em seguir a direito o seu caminho, só apreciando a verdade,
querendo-a mesmo que convulsionasse a terra e fizesse cair o céu!”
Cerca de um ano após ter
publicado o seu penúltimo livro
A reabilitação de Dreyfus
só deveria verificar-se cerca de seis anos após a morte de Zola. A doze de
Julho de 1906 o tribunal da cassação anulou o julgamento do conselho de guerra
de Rennes considerando que fora por erro e sem razão que tal julgamento fora
proferido não mandando submeter o acusado a novo julgamento... era a
reabilitação; foi preciso, porém, uma lei para Dreyfus ser reintegrado no
exército no posto que lhe competia enquanto Zola repousava havia muito no seu
mausoléu do cemitério de Montmartre. Como reparação póstuma e em honra do
escritor que sempre se debateu pela verdade e pela humanidade, àquele que fora
condenado como difamador quando na realidade se de gladiava pela justiça foi
resolvido trasladar as cinzas de Émile Zola para o
Panteão
Nacional. A despeito da oposição das direitas e até de escritores como Maurice
Barrès, a Câmara votou em dezanove de Março de 1908 um crédito de trinta e
cinco mil francos a aplicar nessa cerimónia tendo esta, inicialmente, sido
fixada para dois de Abril, data do nascimento do escritor; porém o governo
transferiu-a para quatro de Junho, mas dadas as agitações contra Zola e as
afirmações do tenente-coronel du Paty de Clam feitas publicar no L’Aurore, decidindo este executar na
véspera da trasladação das cinzas de Zola para o Panteão dado que nessa carta
aberta o sistro maquinador da questão Dreyfus dizia querer mostrar que “a cerimónia projectada era a apoteose da
calúnia”. Esse incitamento produziu os seus frutos... a trasladação fez-se
ao entardecer de três de Junho; às dezanove horas foi exumado o féretro do
jazigo e transportado num carro funerário para o Panteão. A cerimónia oficial
efectuou-se no dia seguinte na presença do Presidente da República, dos
ministros e dos membros do parlamento. Dreyfus ainda foi ferido num braço com
um tiro de revólver aquando da saída do Governo do Panteão e já no exterior
deste.
Em 1908 foi inaugurado em
Nîmes o busto de Lazare enquanto Alfredo Dreyfus como capitão ainda
participaria da primeira guerra mundial onde alcançou vitórias retumbantes.
Nesta altura os opositores a Dreyfus silenciavam-se gradualmente mas na segunda
Grande guerra com o país dominado pela Alemanha tanto judeus como franceses
trabalhavam ombro a ombro quer nas ruas quer na resistência francesa para
libertar o país do invasor. A vinte e nove de Setembro de 2003 foi celebrado
pela Europa o centenário da Morte de Émile Zola.

Foi com grande gosto que me
dediquei a este trabalho para Vós tal como para mim porque se tratou de um
grande desafio. Logo após a minha licenciatura todo o meu ensino foi na
faculdade, portanto, ausente do Liceu desde há trinta e um anos e completamente
fora do seu actual ambiente, dos programas e apenas com uma proposta: escrever
sobre o Impressionismo e o Caso Dreyfus para o décimo primeiro e o décimo
segundo ano. Aqui está, agora sereis Vós a analisá-lo e a julgá-lo; se eu poder
ter conhecimento das Vossas críticas, bom, melhor ainda.
João
Reis D’Affonseca
[1] O número de exemplares situava-se entre os
duzentos e os trezentos mil não se sabendo ao certo porque obrigou a duas
séries de impressões dado a primeira se estar a esgotar e a corrida para a
aquisição do jornal ser enorme e cada vez mais crescente.
[2] Perreux.
[3] O que absolvera Esterhazy.
[4] Só o facto de terem sido os socialistas a
provocarem o debate já comprova a minha tese de que Zola só pretendia ganhar tempo
para a fuga porque da sua condenação já ele estava certo tal como da sua
vitória a médio prazo, o que irá acontecer para grande vergonha dos dirigentes
dos destinos da França.
[5] Por todos estes incríveis acontecimentos é que
esta monografia tem como título Actus
Reactus.
[6] Pogrom palavra russa pôgromiti na qual pô =
inteiramente e gromiti = destruir. O
pogrom ou pogrome na Rússia era o nome que se dava aos movimentos populares
dirigidos contra os judeus, quase sempre acompanhados de pilhagem, violação e
assassínios.
[7] Mesmo no mundo semita e muçulmano só os judeus
foram atingidos; d’onde, o ser crescente a força da minha afirmação a favor do
termo ‘anti-judaísmo’ só que agora exibido por outro ponto de análise.
[8] Adido militar da Embaixada da Itália em Paris.
[9] Em França é o tribunal de última instância.