Escrita a carta Zola publica-a numa terça-feira a treze de Janeiro de 1898, como carta aberta no jornal L’Aurore ao que o editor Ernest Vaughan (membro da Primeira Internacional Socialista, o que desde já mostrava as preferências dos artigos contidos neste hebdomadário) conjuntamente com Georges Clemenceau decidem colocá-la na primeira página em seis colunas o que sendo inédito daria mais destaque ao documento. A carta, cujo texto apresentei na íntegra no tópico anterior, contém, ponto-por-ponto, o texto total do Caso Dreyfus e conclui-se com uma série de fortes acusações contra os chefes militares franceses... em duas horas esgotaram-se os mais de duzentos mil exemplares[1], número que já por si excedia dez vezes mais o normal e acrescido do tempo que levou a esgotar exibe bem o interesse que o material levantou na opinião pública denotando por excelência, paralelamente, o êxito merecido do documento.

Como consequência da publicação o deputado católico conde Alberto de Mun interpelou o Governo na Câmara sobre as medidas que tencionava tomar enquanto o Presidente do Conselho Méline declarou de imediato que iria intentar um processo ao escritor, no que concerne ao Ministro da Guerra o General Billot secundou-o verberando “abominável campanha!”. Os deputados Jaurès e Cavaignac lamentaram o facto de o Governo não ter publicado o pretenso relatório do capitão Renaud Lebrun segundo o qual Dreyfus afirmara ter confessado... durante a pretensão argumentativa do Chefe do Governo com o fito de demonstrar que não possuía qualquer intenção de abrir uma tribuna ao processo de revisão, os deputados votaram uma moção de confiança ao Governo pedindo que tomasse as medidas necessárias para pôr termo à campanha difamadora da honra do exército; porém, os socialistas mais uns sessenta radicais e radicais-socialistas votando contra puseram o Governo a ruminar uma forma alternativa de condenar tanto Zola como o gerente[2] do L’Aurore de modo a que a questão à volta de Dreyfus não fosse levantada na discussão. Ensaiaram, os conservadores, em apenas considerarem difamatórias as acusações feitas por Zola contra o Conselho de Guerra que absolvera Esterhazy mas tudo o que o escritor afirmara sobre o primeiro Conselho de Guerra, aquele que condenara Dreyfus, tal como sobre todos os que montaram a máquina do processo nunca poderia ser considerado difamação... perante esta análise os opositores à Carta de Zola permitiram-lhe observar que afinal reconheciam as suas alegações como verazes e por isto tiveram que engolir as suas vãs tentativas sob o perigo de cometerem uma grave injúria. O ódio desmedido dos opositores já não os deixava raciocinar com clareza ao ponto do Conselho de Ministros, no intuito de evitar o tribunal do júri, mas apenas a fazer julgar e condenar o autor da Carta num simples tribunal da polícia correccional por denúncia caluniosa só o não ousou fazer porque o Procurador-geral e o Procurador da República declararam tal atitude juridicamente impossível.

Sem cederem, os opositores organizaram com toda a rapidez um processo no qual o pretenso delito do autor da Carta se limitava à difamação contra o segundo Conselho de Guerra[3] mas assim que Zola recebeu a intimação imediatamente protestou nas colunas do L’Aurore aonde voltou a acusar abertamente os generais Billot, de Boisdeffre, Gonse e de Pellieux assim como o coronel Du Paty de Clam e o major Ravary; Zola nesse texto acrescenta nas colunas do jornal: “Saberei vencer pela força da justiça; farei luz nas consciências pela explosão da verdade. Ver-se-à, logo às primeiras palavras, as argúcias processuais varridas pela imperiosa necessidade de prova. Essa prova, a lei ordena-me que a faça e a lei seria mentirosa se, impondo-se esse dever, me recusasse os meios de o cumprir. Como poderei fazer a prova se não puder mostrar o encadeamento dos factos e se me impedirem de fazer plena luz sobre a questão?” Só que a lei, tal como se pode observar no nosso palco, era na realidade mentirosa. Pelos seus documentos duvido que Zola se tenha enganado pois este autor possuía total conhecimento desse facto lançando, por isso, o texto acima apresentado baixo uma hipótese de ainda os amedrontar apesar da sua mínima esperança pelo menos a curto prazo e digo ‘amedrontar’ porque observei em variegados documentos que analisam a situação de Zola que este já antevendo o pior precisava de ganhar algum tempo para preparar a sua fuga... o que veio a acontecer. Ora e na continuidade do por mim afirmado, por esta firme atitude do autor da Carta, a Câmara de Deputados viu-se obrigada a um novo debate no próprio dia em que o protesto do escritor veio a lume no L’Aurore mas agora era Jaurès, secundado pelos mais eminentes dos socialistas[4], que o provocou. O grande orador tal como os seus colegas foram chamados à ordem e repreendidos pelo presidente se bem que os mais injuriosos apartes ecoavam do centro e da direita... se a Jaurès a direita o apelidou de advogado do sindicato o orador não deixou de o apelidar de miserável e cobarde; os ânimos aqueceram de tal forma que os tumultos tomaram lugar e em pouco tempo a cena de pugilismo entre deputados tornou-se a tónica do diálogo[5]. Resultado, sendo essa a intenção da esquerda e de Zola, a sessão foi suspensa mas tal só se deu com a intervenção da força armada e só assim foi evacuada a Assembleia.

Dois dias depois o debate era reaberto tomando, de novo, a palavra Jaurès assentando o seu discurso num impor de limites à acusação, isto é, o escritor deveria ser julgado por todas as acusações contidas na Carta ao Presidente da República a fim de poder fazer prova delas; se esta era a vontade de Zola como de todos os amigos de Dreyfus já o Governo o temia tentando evitar tal a todo o transe só que agora a Câmara vence pela grande maioria de trezentos e sessenta votos contra cento e vinte seis dos socialistas e apenas alguns radicais presentes o que concedeu a razão ao governo permitindo o Presidente do Conselho dizer calmamente a Jaurès: “respondo-lhe que não queremos discutir a questão e que não quero servir os seus cálculos.”

O anti-judaísmo cresceu ao ponto da imprensa afim incitar a população a executar o pogrom[6] como só até então se tinha visto na Rússia e na Polónia, um tal Guérin associado do jornalista anti-judaico Drumont percorria os diversos bairros de Paris à frente de bandos de energúmenos queimando os jornais que defendiam a revisão do processo de Dreyfus tal como assaltando e pilhando as lojas dos judeus; este cenário repetiu-se em Bordéus, Nancy, Nantes e em outras cidades francesas mas foi na Argélia que o progrom tomou extraordinárias proporções uma vez que em alguns dias foram destruídos cento e cinquenta e oito estabelecimentos judaicos em cujas manifestações foram inclusivamente agredidas mulheres judias.[7]

A menos de um mês após a publicação da Carta no L’Aurore e neste ambiente de ódio começa o julgamento de Émile Zola; mesmo sendo raro a justiça ser tão expedita a verdade é que não houve processo a instruir nem testemunhas para depor... apenas o corpo do delito ali jazia e, mesmo deste, apenas um parágrafo arrancado ao maciço conjunto das acusações. Zola era o réu encontrando-se a seu lado o gerente do L’Aurore; o julgamento durou quinze dias não servindo de nada a grandeza e eloquência do advogado de defesa do escritor porque já estava estabelecida a sua condenação. Ademais, a presença do gerente do jornal apenas serviu para afundar ainda mais Zola e o saber que a sua presença era apenas um proforma e o modo como ainda agravou mais o seu amigo angustiou de sobremodo Perreux.

A afluência do público era enorme não havendo espaço para receber mais gente na sala das sessões... este público era na sua maioria hostil a Zola sendo grande parte dele constituído por oficiais com roupas civis e outros fardados que compareciam tanto espontaneamente como por ordens superiores; ora, quem organizava esta claque era nem mais nem menos que Du Paty de Clam. Isto veio-se a saber por um advogado anti-semita Júlio Auffray; aconteceu que na ânsia de se recrutar mais militares fardados para a assistência, Du Paty de Clam escreveu uma carta afirmando que seria para ele um prazer procurar um certo reforço de oficiais e que poderiam contar com os seus homens; porém enganou-se ao endereçar a carta e dirigiu-a para outro Auffray mas cujo primeiro nome era Francisco e por aqui se viu confirmada a maquinação.

O Presidente do tribunal mostrou sempre ser um zeloso funcionário, obediente aos seus superiores pois disso dependiam os seus honorários por parte do Governo tal como o relatório sobre o seu comportamento por isto cumpriu na íntegra em não permitir que se abordasse a questão de Dreyfus conforme o intimaram.

Tanto à chegada de Zola ao Palácio da Justiça como à partida aguardava-o uma parte do público para o vaiar, insultar e gritar: «À morte Zola! Abaixo os judeus! Viva o exército!» O público entoava canções patrióticas enquanto o grupo encarregado das agressões se aproximava sorrateiramente da carruagem para poder atingir o escritor à bastonada tendo sido um grupo de amigos de Zola que se organizou com o propósito de o proteger e escoltar a fim de que tal não voltasse a acontecer enquanto à polícia se mantinha à distância. Tal como no exterior assim ocorria na sala das sessões do Palácio da justiça... na audiência os militares tornavam-se ruidosos movendo as espadas e as correntes como deixando escapar sons e expressões a fim de perturbarem a defesa de Zola a actuar, os generais e demais oficiais interrogados podiam responder conforme lhes apetecia e os generais podiam mesmo oporem-se; enfim, a farsa era total porém a postura de Zola era de uma indiferença completa até que a determinada altura o general de Pellieux – ser arrogante, provocador e neste sentido com uma oratória bem dirigida – se voltou para os jurados afirmando: «Que querem que seja o exército no dia do perigo, mais próximo talvez do que julgam? Que querem que façam os infelizes soldados, que serão conduzidos ao fogo por chefes a quem procuraram desconsiderar junto deles? Será ao matadouro que conduzirão os seus filhos, senhores jurados. Mas o Sr. Zola terá ganho uma nova batalha; escreverá uma nova Derrocada e levará a língua francesa a uma Europa donde a França terá sido suprimida nesse dia!» Perante estas afirmações Zola não se pode conter e ergueu-se para proferir com voz fremente: “Há muitas maneiras de servir a França podemos servi-la pela espada ou pela pena. O Sr. General de Pellieux tem, sem dúvida, alcançado estrondosas vitórias. Eu ganhei as minhas. Pelas minhas obras, a língua francesa tem sido levada ao mundo inteiro. Tenho as minhas vitórias. Lego à posteridade o nome do General de Pellieux e o de Émile Zola: ela escolherá!

Foi este General de Pellieux que apesar do deu excesso de zelo se permitiu evocar a questão Dreyfus infringindo deste modo as imposições do Presidente; porém este não o chamou à ordem porque aos Generais tudo era permitido. Foi graças a isto que surgiu uma (das várias), falsificação do tenente-coronel Henry, uma das muitas que o haveria de conduzir ao suicídio. A fim de demonstrar ser Dreyfus o traidor reportou-se a um documento “de origem incontestada” de que o Ministério da Guerra tivera conhecimento, no qual se afirmava, por ocasião de uma interpelação parlamentar, em Novembro de 1896 “Vai produzir-se uma interpelação sobre a questão Dreyfus. Não diga nunca as relações que tivemos com esse judeu” e para testemunhar isto invocou o testemunho do Chefe do Estado-maior general Boisdeffre o qual foi imediatamente chamado mas porque não se encontrava no Palácio da Justiça a sessão foi suspensa até que o general chegasse. Quando Boideffre se apresentou e a sessão reabriu este confirmou tudo o que se tinha afirmado sem se adiantar mais; ora o documento em questão não era mais do que o que foi totalmente falsificado por Henry o qual o atribuiu ao adido militar à embaixada italiana e dirigido ao adido militar da embaixada alemã; este documento foi forjado para convencer os seus chefes, ainda vacilantes, da culpabilidade de Dreyfus... porém a nível do tribunal o documento falsificado não teve repercussões.

Um dos depoimentos de maior interesse foi o do coronel Picquart o qual foi quem descobriu ser o bordereau obra de Esterhazy por isso e por outra razão expôs largamente tudo quanto sabia incluindo os antecedentes e fê-lo com uma serenidade e uma elegância que impressionou os seus próprios adversários; a outra razão porque expôs todo esse material assentou no facto de antes de ter começado o julgamento de Zola lhe fora intentado um processo disciplinar a pretexto de ter revelado ao advogado Leblois documentos secretos dos arquivos da Segunda repartição do Estado-maior concernentes a Dreyfus e a Esterhazy; o Conselho de Disciplina resolvera castigar o coronel Picquart reformando-o por imposição do serviço porém, o Ministro da Guerra ainda não tinha lavrado o despacho confirmativo dessa decisão quando este coronel depôs no julgamento de Zola; no final do seu depoimento o coronel foi amplamente elogiado por parte do público tal como por inúmeros advogados jovens – só na sala das sessões haviam cerca de duzentos advogados. De tudo o que pudessem ou quisessem fazer a favor de Zola nada valia a pena pois a decisão há muito estava tomada: a condenação do escritor; deste modo foi condenado à pena máxima estipulada para estes casos: um ano de prisão e três mil francos... do mesmo modo foi condenado o gerente do L’Aurore condenado em três mil francos mas apenas a quatro meses de prisão.

Zola e o editor recorreram da sentença sendo o fundamento principal do recurso o terem sido coarctados os direitos da defesa este foi defendido pelo jurisconsulto Mornard. As pessoas a favor de Zola e do Editor aumentavam desmedidamente e já se começava a exigir a revisão do processo de Dreyfus; o Governo cedeu por uma questão de imagem e por outros factores que ficaram por apurar, apesar de não gostar nada deste recurso. Foi indevidamente o Ministro da Guerra em vez de terem sido os ofendidos pela Carta de Zola a expor a sua situação contra o réu; não obstante foi exigido que o caso fosse tratado no tribunal de Versalhes por ter a fama de ser o mais severo. Com o avolumar da corrente de opinião a favor da revisão do processo de Dreyfus convinha aos amigos deste ganhar tempo para o novo julgamento de Zola e por isto o advogado de defesa do escritor, ao abrir a audiência, levantou logo a questão da competência desse tribunal para julgar o feito... baseava-se no facto do delito, se é que este existia, fora praticado em Paris local onde os acusados tinham a sua residência e por tal era em Paris que se deveria executar o julgamento e nunca numa comarca judicial à qual eram estranhos tanto o acto praticado como os seus autores; o tribunal declarou-se competente para julgar o caso e o advogado de defesa de Zola anunciou então agravar para o tribunal superior, a audiência foi suspensa e o recurso formulado porém e de novo o tribunal foi declarado competente; tudo isto foi prosseguindo com novas dúvidas apresentadas pelo advogado de defesa do escritor e novas suspensões da audiência mas afinal era isto que se pretendia: ganhar tempo.

Por fim surge o tribunal mas o advogado de defesa manda Zola e Perreaux retirarem-se dado que nada os obrigava a assistir ao julgamento... o tribunal não estranhou essa retirada e condenou os dois à revelia no máximo da pena.

Poderia parecer que o advogado de defesa se tivesse precipitado mas do ponto de vista do jogo judicial o advogado fez o mais ajuizado só que Zola não estava de acordo com esses movimentos e tricas judiciárias; chegou mesmo a protestar contra Clemenceau pelos escritos que fez em seu nome mas Clemenceau via principalmente o aspecto político da questão e as vantagens de tirar proveito dela contra as forças reaccionárias e o Governo; porém Zola via sobretudo o aspecto humano e daí a divergência entre ambos... paralelamente os amigos de Zola impuseram-lhe que deixasse Paris para um local onde se pudesse esconder e já se punha a hipótese de ter mesmo que deixar o país. Tudo isto era muito confuso para o escritor pois sabia que os seus inimigos iam interpretar esse exílio táctico como uma fuga e tirariam daí conclusões não só contra ele, pessoalmente, mas em especial contra a causa pela qual se sacrificara. Os amigos de Zola liderados por Clemenceau e o advogado de defesa Labori sabiam que o importante era que o escritor não comparecesse a mais nenhum tribunal nem mesmo que conseguisse uma pena mínima pois o mais importante era que a questão de Dreyfus fosse revista e só depois disto é que o escritor poderia comparecer em tribunal e se acontecesse ao contrário nunca mais o processo de Dreyfus seria revisto.

Claro que aos olhos românticos de Zola tudo lhe parecia mal e perante todas as argumentações dos seus amigos – que no fundo o escritor sabia terem razão –, contra a sua vontade idílica de ser preso para defender a justiça atrás das grades, enquanto os Esterhazy eram aclamados pelas turbas e não se divisava hipótese alguma para que a revisão do processo Dreyfus fosse alcançado continuando aquele desgraçado inocente a penar na Ilha do Diabo, Zola acaba por ceder; mas em vez de ficar em França abandonaria Paris para ir para Inglaterra tendo efectuado a partida para Londres em dezoito de Junho de 1898, isto é, no mesmo dia em que o tribunal de Versalhes o condenou à revelia. Da casa e das posses Zola nada foi leiloado apenas uma simples mesa que o seu Editor Fasquelle arrematou de imediato por trinta e dois mil francos, a quantia exacta exigida pelos peritos como indemnização. A sua esposa permanecera em Paris protegida pelos amigos do escritor e Zola encontrava-se em Londres num hotel sob um nome falso francês do qual, devido ao receio dos amigos porque ouviram focar por parte de inimigos de Zola o nome do mesmo hotel, se mudou para outro sob um nome francês diferente; estas precauções em parte absurdas amarguravam Zola que de novo mostrou vontade de voltar a França e entregar-se à prisão. O que mais lhe custava era ser um fardo para os outros, quanto mais ver os seus amigos numa azafama entre a sua protecção e a da sua esposa; porém, conseguiram-no demover de tal atitude e, por fim, alugou uma casa em Penn, sob o nome de Jacques Beauchamp, com o dinheiro que já vinha obtendo do seu trabalho como escritor aonde sua esposa e os seus filhos se vieram a reunir, concedendo-lhe uma maior estabilidade emocional.

A Presidência do Conselho na pessoa de Méline como todos os seus súbditos caiu e do mesmo modo o Ministério da Guerra tendo sido substituídos por um Gabinete da Presidência de Brisson no qual Cavaignac ocupava a Pasta da Guerra antes sobraçada pelo General Billot o que deu lugar à precipitação dos acontecimentos referentes à revisão do processo Dreyfus.

Mal o novo Governo se apresentou à Câmara o deputado Castelin formulou uma interpretação sobre a questão Dreyfus ao que o Ministro da Guerra pediu um prazo de oito dias para se habilitar a responder; Cavaignac queria arrumar este assunto de uma vez por todas e para tal reuniu todos os documentos secretos existentes nos arquivos do Estado-Maior sobre o processo Dreyfus ouvindo, paralelamente, o capitão Renaud Lebrun sobre a pretensa confissão do condenado... desta forma e munido de todo o material que necessitava e que lhe convinha para corroborar de acordo com a sua vontade a fim de pôr fim ao furúnculo, Cavaignac apresentou-se na Câmara onde citou os documentos apontando os factos que lhe permitiram afirmar “a certeza absoluta da culpabilidade de Dreyfus.” Leu diversos documentos nos quais um terminava subscrevendo-se por um ‘D’ enquanto outro possuía o nome completo de Dreyfus e neste o capitão condenado era considerado como um dos espiões franceses ao serviço das potências da Tríplice Aliança.

Os jornais anti-semitas embandeiraram em arco felicitando o corajoso Ministro da Guerra que finalmente produzia os documentos insofismáveis da culpabilidade de Dreyfus puxando o tapete debaixo dos pés daqueles que exigiam a revisão do processo mas estes não desarmaram e reunindo-se com o advogado Labori assentaram que o coronel Picquart tomaria a iniciativa de desmascarar a nova manobra. Reformado pelo motivo disciplinar já atrás abordado, esse oficial tivera em seu poder e estudara pormenorizadamente o arquivo secreto do Estado-Maior relativo à questão Dreyfus o suficiente para saber que tanto o documento subscrito por ‘D’ como o que continha o nome completo de Dreyfus não existiam na altura (1894), ora, se apareciam agora em 1898 os documentos só poderiam ter sido forjados; fundamentado nisto o coronel Picquart escreveu ao Presidente do Conselho Brisson afirmando-se em condições de provar “perante qualquer jurisdição competente” tais falsificações publicando esta carta no Temps; Cavaignac como resposta acusou Picquart por divulgar documentos do interesse da segurança do Estado – não só o afirmou como o mandou prender. Picquart foi preso mas apresentou queixa contra o autor desconhecido dos telegramas que lhe tinham sido dirigidos, anteriormente, subscritos por Blanche e Speranza supondo provenientes de Esterhazy ou daqueles que o protegiam como Du Paty de Clam e Henry.

A doze de Julho de 1898 o deputado Fournière apresentou uma nova interpelação ao Governo sobre a autenticidade das peças tornadas públicas pelo Ministro da Guerra... desta vez o ministro pediu um mês a fim de poder executar novas peritagens que lhe permitissem responder a essa interpelação o que foi concedido por uma enorme maioria. Decidido, o ministro, incumbiu um oficial do seu gabinete o capitão Guinet de lhe redigir um relatório de conjunto sobre a questão Dreyfus de tal forma esmagador deste que lhe permitisse obter da Câmara um voto no sentido de poderem ser entregues aos tribunais e julgados por alta traição todos quantos se obstinavam a agitar este assunto... o desejo de agradabilidade do capitão Guinet ao seu ministro era grande mas ao examinar detidamente as peças de convicção verificou à transparência que o quadriculado dos fragmentos da parte superior do bilhete atribuído a Panizardi[8] não era da mesma cor dos fragmentos da cor do bilhete; paralelamente, observou que a letra tinha sido habilmente imitada mas o papel era outro e imediatamente comunicou essa descoberta ao chefe do gabinete do ministro prevenindo este Cavaignac. Mas Cavaignac não se deu por convencido ordenando novas e mais rigorosas investigações ao que o capitão Guinet obedeceu mas baseando-se sempre no quadriculado do bilhete provou ao Ministro da Guerra ter havido falsificação e por isto acabou por se convencer Cavaignac em vinte e sete de Agosto de 1898 o qual imediatamente convocou telegraficamente os generais de Boisdeffre e Gonse que compareceram no Ministério da Guerra no dia seguinte. Informados estes do ocorrido decidiram chamar o coronel Henry, que se apresentou no Ministério para se explicar sobre o assunto.

Henry foi interrogado pelo próprio ministro mas no início manteve a autenticidade dos documentos; porém e depois de o chamarem à atenção para as particularidades do quadriculado acabou por confessar que fizera umas alterações acrescentando uma frase apenas para clarificar o texto de forma a tranquilizar os seus chefes e acrescentou “procedi no interesse do país e do exército, o que considero como superior a qualquer outra consideração”... pois é, só que o ministro não foi da mesma opinião mandando passar o falsário a outra sala incumbindo o seu chefe de gabinete de o ouvir mais demoradamente. Depois de escutar o coronel Henry durante cerca de uma hora o chefe do gabinete apresentou a sua tese ao ministro o qual ordenou o Governador Militar de Paris mandar um oficial ao ministério a fim de acompanhar o coronel Henry sob prisão ao forte Monte-Valeriano dando o falsário entrada na prisão às vinte e duas horas e trinta minutos. No dia seguinte o preso escreveu várias cartas, uma para a sua esposa, outra para o general Gonse e iria escrever mais não fora ter observado que quanto mais se explicava mais absurdo se tornava ao ponto de, vendo-se na impossibilidade de ele próprio acreditar nas suas justificações, pegar na navalha da barba e pôr termo à sua existência. Imediatamente a seguir a esta ocorrência, Cavaignac apresentou a sua demissão de Ministro da Guerra a três de Setembro de 1898.

 

 

A razão deste tópico ser tão exaustivo assenta no facto de constituir este a explanação e a exposição cabal dos factos por mim encetados, mas em incompletude, tanto na Introdução como no tópico A França, o Anti-Semitismo e a Cultura (The surround ambience...). Neste tópico, assente no Diário de Zola, testemunha-se com profundidade as estratégias impúdicas dos militares de altas patentes, a subjugação do Governo em geral e a do Presidente da República em particular, ao Estado-maior das Forças Armadas, à Igreja e às manobras de diversão (de despiste) executadas por uma espionagem e respectiva contra-espionagem aparentemente inútil mas suficientemente efectiva a favor do anti-semitismo (ou anti-judaísmo, neste ponto tanto faz); por outro lado pode-se observar vivamente o estado manobrado da jurisprudência em geral como da magistratura em particular, submetidas ao poder militar, à Igreja e à alta burguesia... a ala dos conservadores ainda sedentos pelo Império como, se bem que não tanto como em 1850, pelo Imperador.

 

 

 

 

Capitão Alfred Dreyfus

 

Os anti-semitas desesperados viam-se a perder terreno quando subitamente a esposa de Dreyfus apresenta ao Ministro da Justiça um requerimento com o fim de que se executasse a revisão do processo pelo qual fora o seu marido condenado. O Presidente do Conselho era finalmente favorável à revisão e o Governo enviou o requerimento ao tribunal de cassação[9] o qual a vinte e nove de Outubro de 1898 o recebeu ordenando uma instrução suplementar que se procedeu apesar dos tumultos no seio do Governo e fora dele que não se fizeram esperar: o novo Ministro da Guerra general Zurlinden a princípio favorável à revisão acaba por se lhe opor, Brisson e o Ministro da justiça Sarrieu eram a favor dela se bem que o segundo acabasse também por mudar de opinião... Sarrieu chegou mesmo a pedir ao coronel Picquart um relatório pormenorizado dos factos do seu conhecimento durante a sua passagem pelas repartições do Estado-Maior porém o processo contra este continuava a seguir os seus termos enquanto cá fora os anti-semitas tal como outra estirpe de reaccionários esforçavam-se desesperadamente por impedir a revisão; a estes juntaram-se algumas figuras do clero tal como o pretendente ao trono da França o duque de Orléans o qual, como o clero, achou oportuno publicar um manifesto contra a revisão terminando este afirmando: «Sob o pretexto de inocentar um homem que os tribunais condenaram como traidor, é o exército que querem destruir e a França que querem perder.» Para este príncipe o exército era Esterhazy o qual pago ou não pelos amigos de Dreyfus exibiu publicamente a sua confissão de ter sido ele o autor do bordereau acrescentando que o escrevera por indicação do coronel Sandherr.

Em 1889 a meados de Fevereiro morre o Presidente da República Félix Faure tendo sido dois dias depois nomeado para o cargo Emílio Loubet que contrariamente a Félix Faure aceitava a revisão do processo de Dreyfus como urgente apesar de que tal medida não depender de modo nenhum do Presidente da República; porém o tribunal de cassação a três de Junho de 1889 decidiu anular e cito “o julgamento de condenação pronunciado a vinte e dois de Dezembro de 1894, contra Alfredo Dreyfus, pelo Primeiro Conselho de Guerra do Governo Militar de Paris e enviar o acusado perante o Conselho de Guerra de Rennes.” Finalmente conseguira-se aquilo porque tanto Zola lutara e se sacrificara; a agitação provocada pela sua carta aberta ao Presidente da República e publicada no L’Aurore conseguira finalmente atingir os seus objectivos. A quatro de Junho de 1899 o escritor teve conhecimento desta decisão judicial e no dia seguinte já se encontrava em Paris, precisamente na data em que Dreyfus deixava a Ilha do Diabo para comparecer perante o novo Conselho de Guerra. Mal chegou a Paris Zola publicou um artigo no L’Aurore, no qual dizia: “Estou em minha casa. O Senhor Procurador-geral pode, portanto, quando lhe aprouver, mandar intimar-me a sentença do tribunal do júri que me condenou à revelia, a um ano de prisão e a três mil francos de multa. E encontrar-nos-emos perante o júri.” No entanto, o tribunal do Júri de Versalhes parecia não ter qualquer pressa de meter o escritor na prisão desta forma em cada três meses recebia em sua casa uma intimação para comparecer no tribunal mas no dia seguinte recebia uma carta transmitindo-lhe ter sido adiada a audiência sem sequer referir a uma nova data.

Durante o seu exílio, que durou cerca de um ano, Zola teve tempo e o ambiente necessário para levar a cabo a revisão do processo Dreyfus e depois de terminar concentrou-se novamente na sua tarefa de romancista e concluiu o seu romance Fecondité, que foi lançado em Outubro de 1889, um mês depois do Conselho de Guerra de Rennes ter confirmado a condenação de Dreyfus embora reconhecendo-lhe atenuantes... este novo julgamento foi ainda mais monstruoso do que o primeiro porque no de 1984 poderia ainda haver dúvidas devido ao bordereau mas no segundo julgamento depois da descoberta das falsificações de Henry e das confissões de Esterhazy os militares que novamente o condenaram não poderiam possuir qualquer desculpa incluindo o facto do advogado de defesa Labori ter sido alvo de um atentado a tiros de revólver do qual saiu ferido. Durante as audiências de Rennes Zola manteve-se propositadamente à distância sem nunca se manifestar deixando que a justiça corresse sem interveniências exteriores e desta forma as atenuantes de Dreyfus foram de pena perpétua para dez anos de prisão. O Governo ficou surpreendido com tão insólito julgamento então presidido por Rousseau Waldeck o qual se entendeu com os outros ministros para se tratar de perdoar a pena ao condenado. O próprio Dreyfus vacilava entre permanecer como um símbolo da injustiça ou aparentemente submeter-se à sentença e recuperar a liberdade graças ao perdão presidencial, mas apesar de já ter recorrido desistiu para poder beneficiar do perdão imediato sem o qual teria sempre que aguardar em prisão cada vez que apresentasse recurso.

Como acima afirmei, durante todo este processo Émile Zola manteve um alheamento estratégico – o escritor romancista era um humanista mas não um parvo, para além de ainda ter contas de monta para ajustar com o Governo francês –, entregou-se ao silêncio e só quando o Presidente da República Loubet assinou o perdão de Dreyfus em dezoito de Setembro de 1889 é que o escritor saltou para a ribalta. Zola pega na pena para afirmar a sua inconformidade e numa indirecta parecendo estar a consolar a esposa de Dreyfus da segunda injustiça perpetrada contra o seu marido afirmou, numa carta aberta publicada no L’Aurore a dezanove de Setembro de 1899, entre outras coisas: “O inocente, condenado duas vezes, fez mais pela fraternidade dos povos, pela ideia de solidariedade e justiça, que em cem anos de discussões filosóficas, de teorias humanitárias” e prosseguia “Somos nós, os poetas que pregamos os culpados ao eterno pelourinho. Àquele a quem condenamos, as gerações desprezam e apupam. Há nomes de criminosos que, marcados por nós de infâmia, são apenas arrojos imundos na sequência dos tempos”. Contribuiu esta para lembrar o Governo de que havia ainda processos pendentes respeitantes à questão Dreyfus e entre eles estava o de Zola.

No constante intuito de acabar com todo o ruído acerca de Dreyfus o Governo resolveu publicar um decreto de amnistia o qual abrangeria Zola... não faltava mais nada; tentava assim calar (no melhor sentido do termo) o escritor condenando-o como difamador não sendo reabilitado mas apenas amnistiado por pouco e ainda lhe era concedido o perdão como sucedera a Dreyfus. Óbvio que Zola não gostou nada daquilo e pegando na pena elaborou uma Carta aberta ao Sr. Emílio Loubet Presidente da República que foi publicada no L’Aurore em vinte e dois de Dezembro de 1900. Nesta recordou como se verificaram todas as acusações feitas na célebre Carta a Félix Faure repetindo o articulado do seu libelo nestes termos:

“Acusei o tenente-coronel du Paty de Clam “de ter sido o obreiro diabólico do erro judiciário, inconscientemente quero crê-lo, e de ter em seguida defendido a sua obra nefasta, durante três anos, com as maquinações mais ridículas e as mais culposas”. – Não é? Isto é discreto e cortês para quem leu o relatório do terrível capitão Cuignet, que esse vai até à acusação de falsário.

“Acusei o general Mercier “de se ter tornado cúmplice, ao menos por fraqueza de espírito, duma das maiores iniquidades do século”. – Aqui, retrato-me e retiro a fraqueza de espírito. Mas se o general Mercier não tem a desculpa duma inteligência enfraquecida, a sua responsabilidade é portanto total nos actos da sua conta que o inquérito do Tribunal de cassação estabeleceu e o Código qualifica de criminosos.

“Acusei o general Billot «de ter tido nas suas mãos as provas certas da inocência de Dreyfus e de as ter abafado, de se ter tornado culpado desse crime de lesa-humanidade e de lesa-justiça, com um fim político e para salvar o Estado-Maior comprometido». – Todos os documentos conhecidos hoje estabelecem que o general Billot esteve forçosamente ao corrente das manobras criminosas dos seus subordinados; e acres­cento que foi por sua ordem que o processo secreto de meu pai foi entregue a um jornal imundo.

“Acusei o general de Boisdeffre e o general Gonse «de se terem tornado cúmplices do mesmo crime, um sem dúvida por paixão clerical, o outro talvez por esse espírito de corpo que faz das repartições da guerra a arca santa, inatacá­vel». — O general de Boisdeffre julgou-se a si próprio, no dia seguinte ao da descoberta da falsificação de Henry, pedindo a sua demissão, desaparecendo da cena do mundo, queda trágica dum homem elevado aos mais altos postos, às mais altas funções, e que cai no nada. E, quanto ao general Gonse, é um dos que a amnistia salva das mais pesadas responsabilidades, niti­damente estabelecidas.

“Acusei o general de Pellieux e o major Ra­vary «de ter feito um inquérito celerado, considero assim um inquérito da mais monstruosa parcialidade, de que temos, no relatório do se­gundo, um imperecível monumento de ingénua audácia». — Releia-se o inquérito do Tribunal de cassação e ver-se-á o conluio estabelecido, provado, pelos documentos, pelos testemunhos os mais esmagadores. A instrução da questão Esterhazy foi uma impudente comédia judiciá­ria.

“Acusei os três peritos em escrita, srs. Be­lhomme, Varinard e Couard, «de terem feito relatórios mentirosos e fraudulentos, a menos que um exame médico não os declare atacados de doença da vista ou do entendimento». — Dizia isto perante a extraordinária afirmação desses três peritos, que pretendiam que o bordereau não era do punho de Esterhazy, erro, que em minha opinião, uma criança de dez anos não teria cometido. Sabe-se que o próprio Esterhazy reconhece agora ter escrito o bordereau. E o presidente Baliot-Beaupré, no seu relatório, de­clarou solenemente que, para ele, não havia dúvida possível.

“Acusei as repartições da Guerra «de te­rem promovido na imprensa, especialmente no Éclair e no Echo de Paris, uma campanha abominável para desorientar a opinião pública e cobrir as suas faltas». — Não insisto, penso que a prova foi feita por tudo que se soube depois e por tudo o que os próprios culpados devem ter confessado.

“Enfim, acusei o primeiro conselho de guerra de «ter violado o direito», condenando um acusado sobre uma peça conservada secreta», e acusei o segundo de «ter coberto esta ilegalidade, por ordem, cometendo por sua vez o crime jurídico de absolver conscientemente um cul­pado». — Para o primeiro conselho de guerra, a apresentação da peça secreta foi nitidamente estabelecida pelo inquérito do Tribunal de cas­sação e mesmo no processo de Rennes. Para o segundo conselho de guerra, lá está o inquérito a provar conluio, a continua intervenção do ge­neral de Pellieux, a evidente pressão sob a qual a absolvição foi obtida, segundo o desejo dos chefes.

“Vê-o, Senhor Presidente, não há uma das minhas acusações que as faltas e os crimes des­cobertos não tenham justificado, e repito que as acusações parecem bem pálidas, bem modestas hoje, perante o terrível amontoado de abominações cometidas. Confesso que não teria de modo nenhum ousado supor uma semelhante acumulação”.

Zola ao ser envolvido pela graça amnistiante assim como muitos inocentes conjuntamente com muitos culpados não ocultou a sua amargura e exibiu-o nesta sua Carta aberta antes de provar que em tudo o que escrevera e afirmara tivera razão para tal, acrescentou indignado: “É preciso, na verdade, que a política seja uma grande perversora de almas. Dizer que vários dos nossos amigos, vários que tão valentemente têm combatido desde o primeiro dia, cederam ao sofisma, aceitando a lei de amnistia como uma medida política necessária! Corta-me o coração ver um Rane, tão recto, tão corajoso, tomar a defesa de Picquart contra o próprio Picquart, mostrando-se contente por a amnistia, que o impede de salvar a sua honra, o defender do ódio certo dum conselho de guerra! E Jaurès, o nobre e generoso Jaurès, que se dedicou tão magnificamente à causa, sacrificando-lhe a carreira de deputado, o que é belo nesta época de voracidade eleitoral, ei-lo, também, aceitando ver-nos amnistiados, Picquart e Esterhazy, Reinach e du Paty de Clam, eu e o general Mercier! Todos no mesmo saco! A justiça absoluta acaba onde começa o interesse dum partido? Ah! Que alegria ser um solitário, não pertencer a nenhuma seita, só depender da consciência, e que satisfação em seguir a direito o seu caminho, só apreciando a verdade, querendo-a mesmo que convulsionasse a terra e fizesse cair o céu!

Cerca de um ano após ter publicado o seu penúltimo livro La Vérité en Marche em Fevereiro de 1901 no qual reunira as suas cartas e outros artigos sobre a questão Dreyfus Émile Zola morre a vinte e nove de Setembro de 1902 vítima de asfixia e intoxicação pelas emanações do aquecimento a gás (do seu quarto), que deixara mal fechado.... uma transposição dessa obra ainda lhe serviu de tema principal para o seu último romance Vérité, só publicado após a sua morte.

A reabilitação de Dreyfus só deveria verificar-se cerca de seis anos após a morte de Zola. A doze de Julho de 1906 o tribunal da cassação anulou o julgamento do conselho de guerra de Rennes considerando que fora por erro e sem razão que tal julgamento fora proferido não mandando submeter o acusado a novo julgamento... era a reabilitação; foi preciso, porém, uma lei para Dreyfus ser reintegrado no exército no posto que lhe competia enquanto Zola repousava havia muito no seu mausoléu do cemitério de Montmartre. Como reparação póstuma e em honra do escritor que sempre se debateu pela verdade e pela humanidade, àquele que fora condenado como difamador quando na realidade se de gladiava pela justiça foi resolvido trasladar as cinzas de Émile Zola para o Panteão Nacional. A despeito da oposição das direitas e até de escritores como Maurice Barrès, a Câmara votou em dezanove de Março de 1908 um crédito de trinta e cinco mil francos a aplicar nessa cerimónia tendo esta, inicialmente, sido fixada para dois de Abril, data do nascimento do escritor; porém o governo transferiu-a para quatro de Junho, mas dadas as agitações contra Zola e as afirmações do tenente-coronel du Paty de Clam feitas publicar no L’Aurore, decidindo este executar na véspera da trasladação das cinzas de Zola para o Panteão dado que nessa carta aberta o sistro maquinador da questão Dreyfus dizia querer mostrar que “a cerimónia projectada era a apoteose da calúnia”. Esse incitamento produziu os seus frutos... a trasladação fez-se ao entardecer de três de Junho; às dezanove horas foi exumado o féretro do jazigo e transportado num carro funerário para o Panteão. A cerimónia oficial efectuou-se no dia seguinte na presença do Presidente da República, dos ministros e dos membros do parlamento. Dreyfus ainda foi ferido num braço com um tiro de revólver aquando da saída do Governo do Panteão e já no exterior deste.

Em 1908 foi inaugurado em Nîmes o busto de Lazare enquanto Alfredo Dreyfus como capitão ainda participaria da primeira guerra mundial onde alcançou vitórias retumbantes. Nesta altura os opositores a Dreyfus silenciavam-se gradualmente mas na segunda Grande guerra com o país dominado pela Alemanha tanto judeus como franceses trabalhavam ombro a ombro quer nas ruas quer na resistência francesa para libertar o país do invasor. A vinte e nove de Setembro de 2003 foi celebrado pela Europa o centenário da Morte de Émile Zola.

 

 

Foi com grande gosto que me dediquei a este trabalho para Vós tal como para mim porque se tratou de um grande desafio. Logo após a minha licenciatura todo o meu ensino foi na faculdade, portanto, ausente do Liceu desde há trinta e um anos e completamente fora do seu actual ambiente, dos programas e apenas com uma proposta: escrever sobre o Impressionismo e o Caso Dreyfus para o décimo primeiro e o décimo segundo ano. Aqui está, agora sereis Vós a analisá-lo e a julgá-lo; se eu poder ter conhecimento das Vossas críticas, bom, melhor ainda.

 

João Reis D’Affonseca

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[1]  O número de exemplares situava-se entre os duzentos e os trezentos mil não se sabendo ao certo porque obrigou a duas séries de impressões dado a primeira se estar a esgotar e a corrida para a aquisição do jornal ser enorme e cada vez mais crescente.

[2]  Perreux.

[3]  O que absolvera Esterhazy.

[4]  Só o facto de terem sido os socialistas a provocarem o debate já comprova a minha tese de que Zola só pretendia ganhar tempo para a fuga porque da sua condenação já ele estava certo tal como da sua vitória a médio prazo, o que irá acontecer para grande vergonha dos dirigentes dos destinos da França.

[5]  Por todos estes incríveis acontecimentos é que esta monografia tem como título Actus Reactus.

[6]  Pogrom palavra russa pôgromiti na qual = inteiramente e gromiti = destruir. O pogrom ou pogrome na Rússia era o nome que se dava aos movimentos populares dirigidos contra os judeus, quase sempre acompanhados de pilhagem, violação e assassínios.

[7]  Mesmo no mundo semita e muçulmano só os judeus foram atingidos; d’onde, o ser crescente a força da minha afirmação a favor do termo ‘anti-judaísmo’ só que agora exibido por outro ponto de análise.

[8]  Adido militar da Embaixada da Itália em Paris.

[9]  Em França é o tribunal de última instância.